Devil is in details

Era a primeira aula da tarde, à minha frente tinha o Paulo Varela Gomes que, na sua agitação permanente, ia começar um tema novo, a arquitectura conventual feminina. Algures em 2006 (?).

Nesse verão, tinha visitado o Mosteiro de Santa Maria de Arouca. A visita integral, que incluiu todos os espaços habitados pelas freiras, celas, corredores, alas, galerias, coro. A realidade paralela do universo feminino no meio da cidade, resguardo do olhar de estranhos pelos muros altos. O edifício é exclusivamente feminino desde 1154 e ganhou importância a partir do séc. XIII, depois de nele ter ingressado D. Mafalda, a filha de D. Sancho I. Aquilo que se pode ver hoje é consequência das profundas obras de renovação, durante os séculos XVII e XVIII, depois do Concílio de Trento.

Coincidência.

Na aula sobre aquitectura conventual feminina, Varela Gomes debruça-se sobre as particularidades que caracterizam estes edifícios, não só no que respeita à navegação no seu espaço, mas também à sua relação com exterior e aos dispositivos que permitiam essa mesma comunicação. Coros, confessionários, corredores duplos, rodas, grades, pátios, mirantes, frestas.

 Em arquitectura, o ponto de contacto entre interior e exterior, o momento de tensão acontece na interrupção da parede branca, na janela - o mecanismo de comunicação com o resto do mundo, com o outro mundo. Este dispositivo tem diversas formas, assume diversos contornos e funções, tem propósitos, intenções e significados complexos. Porém, interior é um conceito relativo; precisa do exterior para se poder definir. Assim como a esquerda apenas o é porque a direita existe.

Vivemos entre paredes que contêm a nossa vida, as nossas memórias, o nosso corpo. Que espaços são estes, onde o corpo habita e se move? Que lugar é este, cheio de sentimentos, sensações, emoções (machine à émouvoir)? Na mediação com o mundo, qual é o seu papel, que relações, sensações e imagens permite?

Este texto pertence a uma série que começou em 2011, com Beistegui Apartament e Lake Shore Drive. Onde se procurou perceber de que forma um edifício estabelece diálogo(s) com o mundo exterior, considerando a janela como um dispositivo que condiciona a experiência do corpo. Levando a análise ao limite: um edifício que é um corpo e seduz {nos seduz}. A janela percebida como acto erótico ou pornográfico, de contenção contemplativa ou superexposição. Sobre exposição. Tampopo. Excesso.

É um pretexto para criar um mapa de ideias e questionar a tensão que a janela constrói no espaço, estabelecendo pontes com o surrealismo, a fotografia, o cinema, o feminismo, o género, a religião, o poder. Esta história não é nova, não é linear e está em permanente mudança.

joana@houseacrossthestreet.com

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